24.5.09

Racismo à Brasileira

Em 1845, Charles Darwin escreveu em seu Journal sobre o convite de um amigo para ir aos Estados Unidos: "Agradeço a Deus nunca mais ter de visitar um país escravagista. Até hoje, quando ouço um grito distante, ele me faz lembrar com dolorosa vivacidade meus sentimentos, quando, passando em frente a uma casa próxima de Pernambuco (na verdade era Recife), eu ouvi os mais penosos gemidos, e não podia suspeitar que pobres escravos estavam sendo torturados. Perto do Rio de Janeiro eu morava em frente à casa de uma velha senhora que mantinha torniquetes de metal para esmagar os dedos de suas escravas. Eu fiquei em uma casa em que um jovem caseiro mulato, diariamente e de hora em hora, era vituperado, espancado e perseguido o suficiente para arrasar com o espírito de qualquer animal. Eu vi um garotinho, de seis ou sete anos, ser castigado três vezes na cabeça com um chicote para cavalo (antes que eu pudesse interferir) por ter-me servido um copo d` água que não estava limpo".
Não vou escrever mais um texto sobre os 200 anos de Charles Darwin e nem sobre os 150 anos da publicação do livro, que revolucionou e abalou o mundo, "Origem das Espécies". Li esse trecho na revista Carta Capital, sobre sua passagem no Brasil e nela ele relata com encanto as maravilhas da fauna e flora do país, mas também revela uma antipatia e nojo do povo brasileiro e um dos motivos é esse descrito. Darwin era abolicionista e por isso tinha tanto ódio de presenciar essas cenas que ele descreveu. Esse relato de Darwin, porém, mostra um pouco da raiz do racismo no Brasil. Um país que passou 300 anos explorando o trabalho escravo e há apenas 121 aboliu essa prática odiosa, carrega uma herança racista, tão presente nos dias de hoje.
Embora muitos achem que o Brasil não é racista, os fatos do dia a dia contradizem essa premissa. O Brasil têm aproximadamente metade da população afro-descendente e é o maior país negro fora do continente africano. Mas onde estão eles?
Vou começar por onde eles não estão ou são raros. Nas propagandas, a presença de afro-descendentes é mínima e cito como exemplo a fachada de um ônibus interurbano que sempre vejo nas ruas. Embaixo do nome da empresa, bem grande, está estampada uma família "feliz" e sorridente e todos são brancos de olhos claros. Parece uma típica família norte-americana. Sempre imagino a reação das pessoas se fosse uma família inteira negra! Nos telejornais e programas televisivos a presença deles é pouca também. Imagine como seria um Big Brother onde a maioria seria negra e colocassem apenas um ou dois brancos como faz a produção do programa só que ao contrário? Em alguns locais de trabalho como bancos e grandes empresas são poucos os funcionários negros e em cargos de chefia é pior ainda. Nas maiores empresas brasileiras, somente 3,5% desses cargos são ocupados por afro-descendentes. Nas passarelas da moda são raros modelos negras e negros e aqui no Brasil sugeriram cotas para eles nos desfiles. Destaco aqui uma frase que resume bem o que realmente pensa aqueles que são contra qualquer tipo de cota: "Na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem. Muitos com mãos de ouro, fazendo coisas lindas. Tem negros assistentes, vendedoras, por que têm de estar na passarela?" GLÓRIA COELHO estilista, sobre cotas raciais nos desfiles da SP Fashion Week, na Folha. Nos tribunais e na política em geral, os negros são minoria também.Outro lugar onde é difícil de ver afro-descendentes são as escolas particulares e as universidades, principalmente as públicas. É só entrar em qualquer classe de escola particular verá que se tiver um aluno negro já é um milagre. Na faculdade, por exemplo no meu caso, só havia uma aluna afro-descendente na minha sala e na universidade que era particular, em geral, a cena era a mesma. Dentre as públicas a situação é pior, pois na USP os negros não chegam a 2% e é fácil constatar isso. É só dar uma volta aqui na Esalq pra contar quantos estudantes são afro-descendentes. No nível docente o índice é menor ainda, pois não chega a 1%.
As cotas se inserem nesse contexto de injustiça que perdura há anos na universidade brasileira. O pior é que antes ninguém se importava em melhorar o ensino público para que os afro-descendentes tivessem mais chances de ingressar na faculdade, mas agora por causa das cotas, há uma gritaria geral da classe média e alta branca que se sente "injustiçada". Dizem que tem que ser cota por renda, mas um pobre branco infelizmente ainda tem mais chances que um pobre negro. Há os paranóicos que enxergam conspiração em toda iniciativa do governo e dizem que isso é "obra do PT" que quer dividir o país e outras besteiras. Como se só agora as pessoas passariam a discriminar a outra devido a sua cor de pele. Raças, do ponto de vista da evolução, não existem na espécie humana, mas o racismo existe. Mas volto a pergunta que fiz anteriormente: onde eles estão?
Vou responder de acordo com o que eu e todo mundo vê diariamente. Quando entro em bancos, empresas, repartições públicas, consultórios, escolas particulares, universidades, bares, casas noturnas, shopping e clubes vejo os afro-descendentes trabalhando como seguranças, garçons e fazendo o serviço de limpeza geral, assim como descreveu a estilista da frase anteriormente citada. Ai eles são maioria, como também em outros lugares como favelas e presídios. É maioria entre os pobres (cerca de 70%), mortos pela polícia e entre os desempregados. Vêem-se negros bem-sucedidos somente no futebol e na música. Mas parece que isso não é visto por alguns que acham que tudo isso é natural e só é assim por culpa dos próprios afro-descendentes.
O racismo perpetua-se através das brincadeiras e frases que crescemos ouvindo como: "Que serviço de preto" quando algo é malfeito ou "Negro correndo é ladrão, parado é suspeito". Aliás, essa última frase é aplicada inclusive pelas suspeitas dos próprios seguranças que na maioria das vezes tem o mesmo perfil dos "suspeitos". Ou seja, são os negros que perseguem os negros que seus chefes brancos tanto temem. São essas frases e outras piores que já ouvi e continuam circulando por ai. Quem nunca viu quando um afro-descendente sai de uma roda de turma onde todos são brancos e se dizem seu amigo, debocharem e fazerem piadas sobre sua cor? Se este fizer algo errado a frase típica ouvida é: "Tinha que ser preto mesmo". Os xingamentos são vários sendo o mais comum: "macaco". Há aqueles que dizem ainda que os brancos não são racistas, pois "quem tem preconceito são os negros! ". Até hoje os relacionamentos ditos "inter-raciais" são mal vistos por muitas famílias.
Há pessoas que por causa do sobrenome, assim como o meu, gostam de primeiro mostrar sua descendência européia para depois se afirmar como brasileiro. Novelas e reportagens sobre colonos europeus parecem querer mostrar somente uma parte do Brasil.
Ao contrário do que diz o título do livro "Não somos Racistas", do diretor de jornalismo da Globo Ali Kamel, eu afirmo que sim, infelizmente, somos racistas. Toda essa desigualdade não é por acaso e temos em nosso país uma espécie única de racismo como um prato típico daqui: o racismo à brasileira.
Para finalizar deixo transcrito aqui uma letra de um rapper brasileiro chamado GOG, que mostra qual é a cara do nosso país. A música se chama "Brasil com P" e se fosse um Chico Buarque ou qualquer outro desses grandes nomes que tivessem escrito essa letra, seria tida como uma das melhores da MPB.
"Brasil Com P"
Pesquisa publicada prova
Preferencialmente preto
Pobre prostituta pra polícia prender
Pare pense por quê?
Prossigo
Pelas periferias praticam perversidades
Pm's
Pelos palanques políticos prometem prometem
Pura palhaçada
Proveito próprio
Praias programas piscinas palmas
Pra periferia
Pânico pólvora pa pa pa
Primeira página
Preço pago
Pescoço peitos pulmões perfurados
Parece pouco
Pedro Paulo
Profissão pedreiro
Passatempo predileto
Pandeiro
Preso portando pó passou pelos piores pesadelos
Presídio porões problemas pessoais
Psicológicos perdeu parceiros passado presente
Pais parentes principais pertences
PC
Político privilegiado preso parecia piada
Pagou propina pro plantão policial
Passou pelo porta principal
Posso parecer psicopata
Pivô pra perseguição
Prevejo populares portando pistolas
Pronunciando palavrões
Promotores públicos pedindo prisões
Pecado pena prisão perpétua
Palavras pronunciadas
Pelo poeta irmão..
OBS: a foto foi tirada do blog do jornalista Rodrigo Vianna.

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4 comentários:

Anônimo disse...

Pura verdade!

Anônimo disse...

Purissima MENTIRA! Escrita por um "revoltado", que se for de pele "menos branca"..., está entendido ! As "cotas", são a MAIOR aberração da face da terra ! O MAIOR ato de DEMAGOGIA, que um governo pode fazer, sempre que os governados sejam..., uma enorme maioria de "ignorantes" ! Que não sabem e..., nem sabem, que nada sabem !
Seria tão facil ! É so: EXIGIR "igualdade perante a lei" ! Igualdade de oportunidades ! Não porta larga, para alguns ! E digamos com todas as letras: "alguns", de uma ENORME minoria" ! Pois o IBGE, levantou que os negros no Brasil, são...? Sabe ? Ou da uma que não sabe, e nem quer saber ? ? ?
Essa escrita, chamase: "DESONESTIDADE INTELETUAL" !

Camilo Irineu Quartarollo disse...

Esse assunto é um tabu mesmo, vejo que os comentários anteriores, ambos estão como anônimos. Digo que negar a escravidão ou os maltratos e dívidas com eles é negar o mesmo que negar o holocausto ou a crença cristã do crucificado. É impagável, não resta dúvida. O dinheiro não repõe os danos morais e físicos, mas o sistema de cota minimiza. Como é aplicado? Bem, a presunção de boa-fé prevalece na Constituição brasileira como em todos os países democráticos. Então acusá-los, a maioria de afros que assim professam é como acusar os faltosos ao trabalho de preguiça, sem saber a causa real. Se é justo ou diferença de direitos iguais? Ora, que direitos "iguais" tiveram, nem preciso citar as condições que foram submetidos. Sou a favor das cotas por vários motivos, mas como não houve argumentos do anônimo que me antecedeu não vou discutir. Todavia, sou branco, acho que caucasiano, descendente de italianos e não faço parte de nenhuma elite, instituição ou sociedade de amigos disso ou daquilo. Sou mero cidadão.

Beto - João Humberto Venturini disse...

Caro Camilo: Obrigado por suas palavras e demonstra q vc entendeu o meu artigo. Eu deixo esses o comentário de anônimos como esse acima para mostrar a intolerância e preconceito deles.